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Um coração do tamanho do mundo

Um coração do tamanho do mundo





Leleco era um menino especial, e tinha sido assim desde sempre. Nasceu antes da hora e, ao fazê-lo, não chorou. Vieram muitos homens de branco, alguns usando avental, e declararam:

  • Nasceu cedo demais! Não teve nem força para chorar, isto só pode ser problema de coração.

Mãe, pai, avós, tios: todo mundo desesperado! Então aquele menininho tão esperado


Engraçado nos adultos é decidir as coisas sem nunca perguntar às crianças. Se tivessem perguntado, Leleco teria explicação para tudo, e ninguém precisaria ter derramado uma lágrima sequer. Leleco nasceu logo porque não aguentava mais ficar ali, apertado na água! Se fosse pelo aperto, teria se segurado, mas a água era dura de aturar – por toda a infância foi um custo fazer o menino tomar banho! E não chorou porque não julgou ser necessário. Estava feliz de estar ali, do lado de fora, finalmente podendo conhecer sua família. Chorar? Besteira! Só via motivos para sorrir! Mas, ninguém pergunto, então ninguém ficou sabendo. E, se o tivessem feito, a vida de Leleco teria sido bem mais fácil., tão amado, tão querido, tinha problema de coração? Choraram, choraram, choraram. Até pararem de chorar e resolverem que iriam ter todo o cuidado do mundo com ele.

Como todos achavam que ele tinha problema de coração, todos zelavam pelo menino, o tempo todo. Não podia pegar chuva para não resfriar, não podia comer salame para não

enjoar, não podia jogar bola para não se cansar, não podia correr para não desgastar. Não podia uma porção de todas as coisas. E de todas as coisas que Leleco não podia fazer, uma o aborrecia muito. Ele podia ficar sem tomar chuva, ficar sem comer salame, ficar sem jogar bola, ficar sem correr. Ele podia obedecer e ficar sem fazer nada disto, sem reclamar. Mas uma coisa ele não aceitava. Uma proibição que era a mais proibida, a mais doída. Ele não podia tocar em bichos – para não se adoentar!

Leleco não entendia a razão deste impedimento. Seus pais não apenas não o deixavam ter cachorro – ou gato, ou papagaio, ou tartaruga – mas também não deixavam que ele se aproximasse dos animais dos outros. Se ia à casa de um amigo que tinha uma gatinha, por exepmlo, sua maẽ ligava antes, e avisava à mãe do amigo:

  • Leleco tem a saúde muito frágil! Não pode ficar doente, nem eu quero arriscar. Não deixe que ele se aproxime de nenhum animal, por favor. Ele pode ter uma crise de alergia, que pode dar uma acesso de tosse, que pode coçar a garganta, que pode fazer mal ao seu coração...

E a mãe de Leleco falava assim tanta tanta tanta coisa, que as mães de seus amigos morriam de medo de recebê-lo em casa. Quando ele chegava, não apenas os bichos tinham evaporado, mas também todos os sinais de que um animal vivia na casa. Leleco jamais deparou-se com um pêlo de gato no sofá da casa de um amigo. Ou um potinho de ração de cahorro na cozinha. Nada, nada. As mães dos amigos o vigiavam de perto, com medo de que o menino tivesse algum problema justamente quando estava sob seus cuidados. E Leleco, coitado, sentia-se sempre um intruso em todos os ambientes.

O tempo foi passando e Leleco foi crescendo. Por mais que quisessem, seus pais já não podiam controlá-lo como antes, embora tentassem fazê-lo da mesma forma. Mas, chegou o dia em que não dava mais. E Leleco foi sozinho para a escola – bem na esquina de sua casa – pela primeira vez. Foi e voltou, tudo normal. A mãe respirou aliviada. Ele foi a segunda, terceira vez. Logo, virou rotina. E a mãe, sem perceber, começou a relaxar.

Leleco, por sua vez, estava feliz da vida! Conseguira, mesmo que controlada, sua tão sonhada liberdade. E, como era um menino muito tranquilo e obediente, seguia todas as recomendações da mãe. Todas, menos uma.

O menino não tomava chuva, não comia salame, não jogava bola, não corria. Mas não conseguiu se manter longe dos animais. Logo na terceira vez em que ia sozinho à escola, um gatinho cruzou o seu caminho. Instintivamente, abaixou para fazer-lhe um carinho. O bichano gostou, e enroscou-se em suas pernas. Começava, ali, uma história de amor da vida toda.

Leleco, que sempre quisera ter um bichinho, começou a reparar nos animais abandonados pelo caminho. E começou a tratar deles. Sem que ninguém soubesse, pegava-os e o levava para um beco, logo depois da padaria. Construiu ali, longe dos olhos de todos, um pequeno abrigo. Juntou caixas de madeira, trouxe cobertores, improvisou potes. Levava gatinhos e cãezinhos abandonados para lá. Tratava-lhes os machucados, dava-lhes o que comer. E, mais que tudo, enchia-lhes de carinho. Todos ficavam bons quase instantaneamente. E amavam Leleco de volta com aquele amor imenso e incondicional que só os bichos tem. O menino, de uma hora para outra, mudou. Tornou-se mais disposto, corado, sorridente. Leleco estava feliz.

Mas como não se consegue esconder um grande segredo por muito tempo, um dia descobriram o que estava acontecendo. E descobriram assim, de uma forma boba, sem razão de ser. Leleco voltou para casa, um pouco atrasado para o jantar. Estava distraído e esqueceu de verificar suas roupas. Quando sua mãe pegou a blusa para lavar, descobriu muitos e muitos pêlos nela. E todas as cores, de todos os tamanhos, de todos os bichos que Leleco tinha. Entrou em pânico! Chamou o filho, e ele lhe disse a verdade. No dia seguinte, já estavam em um consultório médico.

Os pais de Leleco o levaram para uma consulta com um especialista. Achavam que o filho estava correndo sério perigo, tendo a saúde tão frágil e estando cercado por animais de rua. Entraram no consultório e falaram e falaram e falaram sem parar. Leleco, triste, ouvia a tudo sem emitir um som. O gentil homem de branco ouviu o que os pais de Leleco disseram, sorriu para ele e disse:

  • Venha aqui um instatinho, rapaz!

Ouviu o coração de Leleco, pediu que ele falasse 'AAAA' e respirasse fundo. Olhou para ele. Olhou para seus pais.

  • Quem disse que ele tem problema de coração?

  • Ele nasceu antes do tempo, nos avisaram. Fizeram muitos exames, não concluíram nada. Então, nós achamos que o problema era grave e sempre tivemos muito cuidado com ele. Mas agora, com isto dele ter ficado metido no meio de tantos bichos... Ele piorou muito doutor? É grave sua condição? - a mãe de Leleco nem respirava para falar.

  • Bom, Leleco tem algo, sim.

  • O que? - o pai também estava aflito.

  • O que Leleco tem não é grave. Aliás, não é grave, não é sério, não é ruim. Leleco tem um coração grande, enorme, do tamanho do mundo! E seria bom se mais pessoas tivessem o coração deste tamanho! Ele não é, nunca foi doente. O que ele precisa é viver a vida como todos os outros meninos. E, se ele gosta de bichos, acreditem: isto só o fará bem!

E assim foi que Leleco começou a fazer tudo o que os outros meninos faziam, e descobriu que gostava de correr e de jogar bola, e que não gostava mesmo de comer salame nem de pegar chuva. Teve, a partir deste dia, uma infância normal, saudável e feliz.

Tudo isto aconteceu há muito, muito tempo atrás. Leleco já não é mais menino, nem rapaz. Já é um senhor, querido por todos. E que continua, até hoje, usando seu coração do tamanho do mundo da forma que acha certo. Leleco continua cuidando com carinho de todos os animais que cruzam seu caminho.


1 comentários:

Genícia Souza disse...

Essa foi a história de hoje. Super aprovada!

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