1

O cavalinho do Carrossel

O cavalinho do carrossel



Era um cavalo lindo, aquele. Era esbelto, de uma cor que reluzia ao sol. Mas não era um cavalo como os outros. Não cavalgava, não trotava, nem mesmo andava. Subia e descia, o dia inteirinho, naquele círculo mágico que fazia a alegria das crianças. Era um cavalo de carrossel.

Chamava-se Léo, o cavalo do carrossel. Tinha nascido ali, naquela roda itinerante, preso num constante vai e vem de pessoas e cidades. Conhecia a todos , já que o dono do carrossel às vezes o mudava de lugar. Seu cantinho preferido era bem no centro do brinquedo, entre dois outros cavalos – seus amigos, Junia e Tando. Como passara a vida toda ali, tudo o que conhecia dos lugares por onde passava era o que podia avistar ali do alto. Só que Léo prestava atenção ao que as crianças que montavam nele falavam. Muitas conversavam com ele, outras conversavam entre si, mas todas tinham algo de interessante a dizer. Léo também ouvia o que os adultos diziam, claro – embora nunca fosse nada tão divertido que valesse a pena prestar atenção. E, de tanto ouvir coisas boas sobre os lugares que haviam além do carrossel, Léo começou a querer sair dali. Nasceu nele uma vontade enorme, incontrolável, de sair do carrossel e cavalgar mundo afora.

Quando Léo disse a todos que queria cavalgar mundo afora, todos o apoiaram. Até mesmo o dono do carrossel, que lhe disse: 'vai Léo, cavalga o que tiver que cavalgar. Ponha asas, ganhe o mundo. Quando sentir saudades, será hora de voltar. Não coloco ninguém em seu lugar, que estará sempre te esperando.' E foi assim que, numa tarde fria de outono, Léo deu um pulo para fora do carrossel e ganhou o mundo.

Léo andou durante algum tempo, sem ver nada que não fosse estrada, antes de avistar algo. Era alguém que se movia devagar e engraçado, como se estivesse rebolando. Léo aproximou-se e viu, em sua frente, outro cavalo que não ele. Este, não era um cavalo de carrossel. Era um pangaré.

  • Olá. Sou Léo, e estou querendo viajar para conhecer tudo o que há por aí.

  • Olá. Você veio de onde?

  • De um carrossel que vai de cidade em cidade acompanhando o circo.

  • Ora, mas então já viajaste muito!

  • Sim e não. Já viajei, mas sempre preso ao carrossel. Agora que ver as coisas além daquela roda, quero cavalgar com minhas próprias patas!

  • Pois então conheceste o pangaré certo para ajudá-lo! Também eu adoro sair trotando por aí e posso acompanhá-lo. Vamos, juntos, então.

  • E como é mesmo o seu nome?

  • Oh, desculpe, não me apresentei! Sou Zé, o pangaré.

  • Que bom, vamos juntos, então. Léo, do carrossel, e Zé, o pangaré!

  • Isso aí, parceiro!

Nos dias seguintes, Léo e Zé tornaram-se inseparáveis. Zé era uma ótima companhia, tinha papo para tudo e para todos, e ensinou a Léo a jogar bola, a correr pelos campos e até mesmo a paquerar! Só que, conforme os dias se passavam, Léo começou a perceber que Zé não queria nada de nada com trabalho. Era um boa-praça, e também um boa-vida. Dizia que as coisas aconteciam naturalmente, que uma hora tudo acabava dando certo e assim levava a vida – uma hora fazendo um bico aqui, outra hora contando com a ajudinha de um amigo ali. Muitos lhe faziam favores, ele era mestre nisso: carismático, envolvia a todos em sua conversa e acabava conseguindo o que queria. Mas Léo não era assim. Não queria depender dos outros, não queria viver de favores. Então, depois de algum tempo, agradeceu ao amigo pela companhia e pelas lições e comunicou ' está na hora de eu continuar conhecendo o mundo'. Despediram-se, e Léo continuou sua jornada.

Depois de andar mais alguns dias, Léo deparou-se com um enorme estábulo. Nunca vira nada assim antes e, encantado, aproximou-se. Viu uma grande pista com obstáculos, onde um belo cavalo saltava, obedecendo aos comandos de uma menininha. Ficou bastante impressionado com aquilo e acabou assistindo ao treino inteiro. Quando a menininha saiu do cavalo, ele foi para o estábulo, onde Léo já estava esperando por ele.

  • Olá! Você salta muito bem, parabéns!

  • Obrigado, amigo. Você também salta?

  • Não, sou um cavalo de carrossel. Só subo e desço, agora que estou conhecendo o mundo. Aprendi a cavalgar ainda outro dia, saltar não tenho como!

  • Imagina. Se você já está acostumado com o sobe e desce do carrossel, vai ser fácil! Querendo aprender, posso te ensinar.

  • Quero, sim, claro! Parece tão divertido!

  • E é mesmo. Eu sou Tião, o garanhão. E você?

  • Sou Léo, do carrossel.

  • Prazer, Léo. Vamos começar os treinos agora mesmo!

Tião, o garanhão, era um cavalo de competição obcecado por medalhas. Sua rotina diária incluía, além dos treinos, exercícios e uma dieta rigorosíssima. Era um cavalo extremamente gentil, mas com gana de vitória. Não poupava esforços para sair-se bem nas competições.

Léo, por outro lado, nunca tivera uma rotina tão rígida quanto aquela. Seu trabalho no carrossel, além de divertido, permitia que ele conhecesse diferentes pessoas. Para um cavalo de carrossel, a vida de competidor era árdua demais. Gostou de ter aprendido a saltar e de se exercitar. Gostou até mesmo da dieta restritiva de Tião. Mas, com o passar dos dias, começou a sentir falta da flexibilidade, do poder ir e vir, do descompromisso. Achou que estava na hora de seguir seu caminho. Conversou com Tião, agradeceu-lhe muito por todos os ensinamentos e despediu-se.

O cavalinho de carrossel ainda teria muita coisa por conhecer. Divertiu-se com um cavalinho branco enfeitado que fugira de uma loja de brinquedos, aprendeu a comer milho com um cavalo de fazenda e a entregar o leite com o cavalo que puxava uma carroça. De cada um que conhecia, Léo tirava uma lição. Fazia amigos por todos os lugares onde passava. Mas, teve um dia, que não teve mais vontade de fazer nada.

Neste dia, Léo sentira uma pontada no peito de manhã cedinho. Estranhou, mas não deu muita importância. No decorrer do dia, no entanto, a pontada foi ficando cada vez mais forte, até tomá-lo por completo. Léo entendeu o que acontecia, então. Aquela pontadinha que o tomou por inteiro era saudade. De seus amigos, de seu dono, de sua vida. Do carrossel.

Depois de ter viajado mundo afora, Léo voltou ao carrossel. Contou a todos as novidade, falou do que aprendera. Era, mais do que nunca, um cavalo feliz. Isto ninguém lhe ensinara, ele aprendera por conta própria, e era no pensava sempre. Não importa para onde vamos, nem por quanto tempo iremos ficar. Em algum lugar temos um vínculo do qual não conseguimos nos separar. Viajar o mundo é muito bom, fazer novos amigos é incrível. Mas, o melhor de tudo, é voltar para casa!

Léo agora estava plenamente satisfeito, pois sabia seu lugar no mundo. Continuou viajando muito, sempre que podia. Mas era só a saudade apertar que ele batia em retirada! Ali, naquele carrossel, ele era amado. Ali, naquele carrossel, tinha uma família. E é por isso que em nenhum outro lugar do mundo ele era tão feliz quanto ali...



1 comentários:

carol disse...

Eneida,

Acho esta historinha nos ensina a valorizar aquilo que temos sem
por isso deixarmos de viver novas experiências. Muito legal!

bjos,
Letícia

Postar um comentário