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O dia dela


O dia dela







Era um dia melancólico na Terra. Todos os anos, naquele dia, as pessoas paravam um minutinho. Acendiam velas para aqueles que tinham partido, iam à missa, celebravam seus cultos. Todo ano, a mesma coisa. Todo ano, a saudade e aquela sensação de perda. Todo ano, no mesmo dia. O dia de finados.


No Céu, por outro lado, o dia 02 de novembro não era um dia melancólico. Pelo contrário, era um dia de muita alegria! Todo ano, naquele dia, também eles tinham uma saudação a fazer. Não aos que partiram da Terra, mas aos que chegaram ao Céu. Todo ano comemoravam a alegria de estarem ali. Mas, também eles, sentiam-se um pouco cabisbaixos Queriam muito, muito mesmo, dizer aos que amavam: 'eu estou aqui, eu estou feliz!' Só que não tinham como fazer isto. E entristecia-os ver as pessoas que amavam tristes. E os Santos, que sempre estavam por ali, ficavam chateados com tudo isto.


Foi num destes dias de muitas velas e lágrimas que São Martinho de Lima teve uma ideia. Que tal mandarem alguém à Terra para mudar esta história? Chamou seus amigos e sugeriu:

  • Que te parece, Sebastião, mandarmos alguém para dar uma animada no dia de hoje?

  • Ih, hoje já não dá mais tempo – disse Santa Clara.

  • Mas, Clara, ainda estamos no meio da tarde – opinou Santo Antônio.

  • É, mas não dá para preparar alguém assim, de uma hora para outra – insistiu Santa Clara.

  • Não temos como fazer, então?- perguntou, desolado, São Martinho.

  • Temos sim, Martinho – disse Santa Clara – só não dá para ser hoje.

  • Façamos amanhã, então ! - sugeriu São Sebastião.

  • E já que faremos amanhã, não precisamos preparar apenas uma pessoa.

    Vamos preparar toda a leva de crianças que vai descer à Terra amanhã! - concluiu Santo Antonio.

  • Ótima ideia! - concordaram todos.

E assim foi que começou uma tremenda confusão no Céu. Todos os Santos e Santas estavam empenhados em preparar a nova leva de crianças para descer dos Céus e animar a vida na Terra. São Pedro ficou encarregado do trabalho mais difícil: soltaria um pequeno raio na pontinha do dedo de cada uma das crianças. Eram apenas 20 volts, mas era o suficiente para deixar as crianças cheias de energia. Todos estavam muito animados com a ideia.


Santas Cecília e Inês reuniram todas as crianças que nasceriam no dia seguinte e os puseram em fila. São Pedro chegava pertinho de cada um e pedia ' estica o dedinho para mim'. Assim que esticavam, ele soltava um raiozinho no dedo de cada um. E as crianças já saíam dali dando pulinhos, cheios de energia. 'Que ideia maravilhosa', todos pensavam. 'A nova leva de crianças vai encher a Terra de alegria!' E assim continuaram os Santos durante boa parte da noite, organizando e energizando as crianças.


E então aconteceu algo inesperado. Na penúltima criança, uma menina, São Pedro espirrou. Até aí, não teria problema nenhum. Só que São Pedro espirrou justamente na hora em que tocava a ponta do dedinho da menina. E ao invés de uma leve carga extra de 20 volts, a menina recebeu uma super carga de 220 volts! Enquanto as outras crianças levaram suas cargas e saíram dando pulinhos, a menina saiu dali dando cambalhotas, piruetas, cantando e dançando e programando a festa de sua descida à Terra. A menina não parava quieta um segundo.

  • E agora -perguntou Santa Inês -, o que faremos?

  • Bom não há muito a ser feito – disse São Pedro. A menina já está sendo esperada, não é verdade?

  • Mas... ela vai descer à Terra assim? - questionou Santo Antônio.

  • É o jeito! - afirmou São Pedro. E, além do mais, vocês não queriam a Terra mais animada? Pois então pronto! Está aí: alguém que vai ser animada o tempo todo, todos os dias, que vai ter um fôlego danado. Não queriam diversão? Eis sua encomenda.

E, dizendo isto, São Pedro foi embora – no fundo receoso do que poderia acontecer. Mas todos os temores foram em vão. A menina nasceu sem problemas, muito amada e esperada pela família. Teve uma infância saudável e feliz e continuou assim durante a adolescência até a idade adulta. Sempre a primeira a chegar às festas e a última a ir embora. Uma energia inesgotável, um ânimo admirável. Uma bateria que dura e dura e dura. Com 220 volts e mais...


São Pedro se livrou da enrascada, mas deixou problema para todos os outros moradores do Céu. Nunca uma criança precisou de tantos anjos da guarda para prevenir acidentes. Mas, os Santos, achavam uma graça danada das peraltices da menina. E São Martinho ria cada vez que ela aprontava uma das suas. Afinal, conseguiu o que tanto queria. Naquela família, e para todos os seus amigos, o dia 02 de novembro era um dia muito feliz. Era a véspera do aniversário da Nine. Só isso, e nada mais.

2 comentários:

Minéia Pacheco disse...

Olá,

Nossa, que linda histórinha!
Muito criativa e tenho certeza de que sua irmã ao ler vai ficar muito emocionanda e feliz!!

Parabéns!!

Beijinhos...

Anna Carolina disse...

Adorei!
Também conheço uma menina ligada no 220!
Ótima história!

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