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O último rei – Marina Colasanti





O último rei – Marina Colasanti




Todos os dias Kublain-Khan, último rei da dinastia Mogul, subia no alto da muralha de sua fortaleza para encontrar-se com o vento.

O vento vinha de longe e tinha o mundo todo para contar.

Kublai-Khan nunca tinha saído de sua fortaleza, não conhecia o mundo. Ouvia as palavras do vento e aprendia.

  • A Terra é redonda e fácil, disse o vento. Ando sempre em frente, e passo pelo mesmo lugar de onde saí. Dei tantas voltas na Terra que ela está enovelada no meu sopro.

Kublai-Khan achou bonito ir e voltar sem nunca se perder.

Um dia o vento chegou mais frio, vindo das montanhas;

  • Fui pentear a neve, gelou o vento ao pé do ouvido do rei. A neve é pesada e macia. Debaixo do seu silêncio as sementes se aprontam para a primavera. Só flores brancas furam a neve. Só passos brancos marcam a neve. Na neve mora do Rei do Sono.

Kublai-Khan teve desejo de neve. Então prendeu fios de prata na Lua e a empinou contra o vento. Do alto, espelho do frio, a Lua trouxe a neve para Kublai-Khan. E um sono tranquilo.

Todos os dias o vento contava seus caminhos no alto da muralha.

Todos os dias os longos cabelos do rei deitavam-se no vento e recolhiam seus sons, como uma harpa.

O vento contou o deserto.

  • O deserto, disse com língua quente, é lento como o trigal. E como trigal me obedece. Ele também se curva debaixo da minha mão. Mas seus grãos não são doces como os do trigo. São de areia. E com areia não se faz o pão. As gotas do deserto chama-se tâmaras.

Kublai-Khan quis suar com a doçura das tâmaras. Então prendeu fios de ouro nos raios do Sol e o empinou contra o vento. Do alto, o calor derramou-se no reino de Kublai-Khan amadurecendo os frutos. E o rei bebeu o suco nas mãos em concha.

No alto da muralha gasta de sempre receber o vento, o mundo punha-se aos pés do rei.

E no tempo chegou o dia em que o vento beijou de sal a boca de Kublai-Khan trazendo-lhe o mar.

  • O mar é maior que o deserto e mais profundo que a neve, cantou o vento. O mar é verde como os campos, mas seu capim cresce nas profundezas e ninguém vê o gado que nele pasta. O mar chama os homens e canta. Sua voz tem nome de sereia.

Ouviu Kublai-Khan o chamado da sereia na voz do vento?

Ninguém sabe.

Dizem os pastores da planície que o viram prender cordas de linho nas pontas da grande pipa de seda. Depois ergueu a pipa contra o vento e, abandonando com os pés o alto da muralha de sua fortaleza, deixou-se levar pela corda branca, último rei Mogul, longe no céu, lá onde ele se tinge de mar.


1 comentários:

Unknown disse...

Qual é a moral da história?

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