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O videogame e a pipa

O videogame e a pipa



Moravam no mesmo prédio, tinham a mesma idade e até o mesmo nome: José Carlos. Um morava na cobertura e era conhecido como Juninho, porque seu nome era igual ao do seu pai. O outro morava no playground, no menor apartamento do prédio, e era conhecido como Zeca.

Zeca tinha se mudado há pouco tempo para ali. Seu pai conseguira o emprego de zelador do prédio e eles se instalaram no apartamentinho do playground. Zeca adorava! Apesar do apartamento ser pequeno, o prédio era grande, e tinha de tudo: salão de festas, salão de jogos, piscina, sauna. Ele podia chegar da escola, ficar um pouco na piscina, tomar banho e continuar brincando no salão de jogos.

Já o Juninho tinha nascido naquele lugar, mas quase não o aproveitava. Seus pais eram médicos e passavam o dia trabalhando. Por isso, Juninho passava o dia todo na escola. Aos finais de semana, seus pais quase sempre queriam descansar, então iam todos para a casa de praia da família. Juninho adorava: os pais ficavam os dois dias inteirinhos com ele, brincando muito.

Um dia, Juninho e Zeca se cruzaram no elevador. Disseram oi, e só. Cada um foi para a sua casa e ficou pensando 'como eu nunca vi este menino aqui, antes?' No dia seguinte, nova coincidência. Eles, que nunca tinham se visto antes, se esbarraram dois dias seguidos no elevador. Desta vez, Zeca resolveu puxar papo.

  • Eu nunca te vi por aqui. Você se mudou há pouco tempo?

  • Não, eu sempre morei aqui.

  • Eu me mudei tem mais de um mês e nunca te vi!

  • É que eu estudo o dia todo. Mas agora eu estou de férias. Você se mudou para o apartamento da Joana? Ela foi morar em São Paulo e meu pai disse que iremos lá no aniversário dela.

  • Não, eu moro no apartamento do play, meu pai é o novo zelador.

  • Ah, o Seu Tião!

  • É, ele mesmo. E eu sou o José Carlos, mas me chamam de Zeca. E você?

  • Eu também sou José Carlos!

  • Você também é Zeca?

  • Não, sou Juninho, de Júnior. É que José Carlos também é o nome do meu pai.

  • Entendo.

O elevador parou na cobertura e Juninho disse 'eu moro aqui'. Despediram-se e marcaram de brincar no dia seguinte, no salão de jogos.

No dia seguinte choveu muito. O salão de jogos era todo aberto, e a mãe do Juninho disse que ele não poderia descer para brincar. Juninho explicou que tinha feito um amigo e ele estaria esperando por ele, então sua mãe resolveu o problema: 'chama seu amigo para vir brincar aqui, Juninho. Eu faço um lanche bem gostoso e vocês podem passar a tarde brincando num lugar quentinho, mais apropriado para o dia de hoje'.

Juninho correu até o interfone e ligou para o apartamento do zelador. Zeca atendeu e ele fez o convite, aceito na hora. Em menos de dez minutos, Zeca já estava dentro do quarto do Juninho.

O quarto do Juninho era enorme! Tinha de tudo: bolas de diversos tipos, uma coleção de carros antigos e outra de motocicletas. Tinha diversos jogos de tabuleiro e uma estante cheia de livros. E, em uma parede, uma tela bem grande. Juninho mostrou a tela e disse 'é para o videogame novo que meu pai de deu! Você quer jogar?' Zeca disse que nunca tinha jogado aquele videogame (ele nunca nem mesmo o tinha visto até então),mas Juninho disse que era fácil e que poderia ensiná-lo.

Juninho realmente ensinou todos os truques do jogo ao Zeca, que na segunda rodada já tinha virado craque. Os dois divertiram-se demais, iam mudando os games mas continuavam jogando. Passaram a tarde inteira assim. Na hora de se despedirem, Juninho convidou: 'volta amanhã, Zeca. Daí a gente joga mais.'

Zeca voltou no dia seguinte, e no outro, e no outro. Adorava jogar com Juninho. E Juninho também achava muito mais divertido jogar em dupla. A mãe de Juninho estava satisfeita em ver que seu filho arranjara companhia para brincar, e todo dia deixava pronto um lanche gostoso para os dois.

A mãe de Zeca também ficou feliz em ver que seu filho fizera um amigo. Mas achava que Zeca não deveria ir todos os dias para a casa do Juninho. Disse para ele: ' Zeca, convida o Juninho para vir aqui, também.' Zeca dizia que ia convidar, mas nunca o fazia. Um dia, sua mãe o chamou para uma conversa.

- Zeca, o que está acontecendo? - ela perguntou.

- O que está acontecendo o quê, mãe?

  • Por que você não quer convidar seu amigo para vir aqui?

  • Eu gosto mais de ir lá.

  • Por que?

  • Porque lá é muito maior, e tem uma porção de coisas bacanas. E tem o videogame do Juninho, que nós brincamos todo dia.

A mãe de Zeca, então, entendeu o que seu filho sentia. Pediu que ele sentasse com ela um pouquinho e disse: 'Zeca, algumas pessoas tem uma situação melhor do que as outras. Tem mais dinheiro, podem comprar mais coisas. Você pode ter tudo o que quiser, quando crescer. Seu pai e eu viemos de muito longe, você sabe. Não tínhamos estudo nenhum, tudo nosso era muito difícil. Bacana, para a gente, era ter o que comer. Você, por outro lado, já nasceu em situação diferente. Tem muitas coisas que seu pai e eu pudemos te dar. E, se você estudar, pode ser o que quiser: médico, engenheiro, dentista, advogado,músico. Pode construir uma carreira de sucesso, ganhar dinheiro suficiente para comprar todas as coisas legais que quiser. Mas, se não souber dar valor ao que você tem, nunca será feliz. Terá sempre alguma coisa faltando em sua vida, um vazio que não é preenchido com coisas que se pode comprar.'

Zeca ouvia sua mãe com atenção. Ela parecia muito sábia, neste momento, mais do que ele jamais percebera. Ela continuou.

  • Deixa eu te perguntar uma coisa. O que você mais gosta no videogame do Juninho?

  • Eu gosto quando nós temos que atacar os alienígenas e aí...

  • Sim, nós.

  • Nós, o que, mãe?

  • Meu filho, você gostaria tanto do videogame se tivesse que jogar sozinho?

  • Não, mãe, o jogo é em dupla.

  • Então, meu filho, aprenda isto: não importa o brinquedo, contanto que você tenha um amigo com quem dividi-lo. Se o Juninho é mesmo seu amigo, tenho certeza que ele vai ficar feliz em brincar com você aqui em casa, mesmo sem o videogame.

No dia seguinte, Zeca chamou Juninho para brincar em seu apartamento. Mostrou-lhe seu aviãozinho de madeira, sua bola grande plástico e seu brinquedo favorito, uma pipa. Juninho disse que nunca tivera uma pipa e então Zeca sugeriu que eles fizessem uma para ele. Pegaram as varetas, papel de seda, sentaram no chão e fizeram uma pipa toda colorida. Quando acabaram, pegaram as duas pipas e foram empiná-las. Passaram a tarde brincando com as pipas, divertindo-se muito – especialmente Juninho, que nunca tinha empinado uma pipa antes.

Agora, Zeca e Juninho dividem seus dias. Quando está sol, saem para empinar as suas pipas. Quando chove, jogam o videogame. Passam os dias juntos, divertindo-se com as brincadeiras favoritas dos dois, como dois amigos de verdade devem fazer...

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A historinha do dia

Gente,

semana passada só se falava no casamento real. E eu fiquei doida para escrever uma história de princesas, claro! Só que também tive uma conversa bem interessante sobre racismo e isto ficou na minha cabeça. Na sexta-feira, ao assistir o casamento, a noiva me pareceu constrangida em mais de um momento. Então me dei conta que 'princesa' é um título. E achei que, mais interessante do que falar da realeza, era falar de nobreza. Considero um 'gesto nobre', dentre milhares de outros, educar as crianças sem pré-conceitos, ensinando-as a não julgar as pessoas pela aparência ou condição social, por exemplo. Daí, ao invés de construir uma princesa, desconstrui uma. Espero que vocês gostem.

É isso. Mil beijos e bons sonhos

PS: como já mostrei em fotos da minha infância, fui uma menina de cabelos bem lisinhos. Mas era doida para ter molas... :)
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A menina do cabelo de mola

A menina do cabelo de mola



Juliana era uma menina bacana prá chuchu. Era inteligente, divertida, amiga, carinhosa. Tinha uma porção de amigos em todos os lugares: na escola, no prédio, no clube. Seus amigos a chamavam de Jujuba, porque diziam que ela era doce demais para ser Juliana. Jujuba gostava muito de sua escola, mas agora que ela mudaria de série, também teria que mudar de escola. Mas ela não estava preocupada: sabia que logo teria um bocado de amigos novos.

Jujuba foi para uma escola nova em outro bairro, onde não conhecia ninguém. Logo no primeiro dia, conheceu as meninas da turma: Luiza, Fernanda, Gabriela e Maria Antônia. Todas elas eram parecidas: tinham os cabelos loiros e muito lisos – tirando a Gabriela, que tinha os cabelos castanhos, mas também bem lisinhos. Jujuba, por outro lado, era bem diferente delas. Tinha a pele mais escura e o cabelo era de mola: todo enroladinho! Mas isto não impediu que todas se tornassem amigas instantaneamente, claro.

Maria Antônia – Tônia, como a chamavam – era a mais velha da turma. Por isso mesmo, se sentia no direito de decidir a brincadeira. Logo no primeiro dia em que Jujuba entrou para a turma, Tônia disse:

  • Hoje vamos brincar de princesas! Eu vou ser a Aurora, porque o meu cabelo é loiro igualzinho ao dela. A Luiza vai ser a Cinderela. A Fernanda vai ser a Rapunzel, já que ela tem o cabelo mais comprido de todas nós. E a Gabi vai ser a Branca de Neve, porque tem o cabelo escuro.

  • E eu, Tônia, vou ser quem? - perguntou Jujuba.

  • Ih, é, Jujuba, esqueci. Você... vai ser a fada madrinha, está bem?

  • Está bem - Jujuba respondeu, feliz em brincar com suas novas amigas.

Conforme os dias foram passando, Jujuba começou a estranhar a brincadeira. Todos os dias brincavam de princesas. E todos os dias ela não era uma das princesas! Era madastra, irmã malvada ou fada madrinha.Todos os dias ela tinha que, de alguma forma, servir às outras. Até que, no final da semana, cansou da brincadeira. Quando Tônia começou a nomear as princesas, foi logo avisando:

  • Tônia, hoje eu quero ser princesa também! Cansei de ser fada madrinha.

As meninas olharam umas para as outras com espanto. Tônia, um pouco sem graça, disse:

  • Desculpa, Jujuba, mas não pode.

  • Por que? - perguntou a doce menininha.

  • Porque princesa não tem cabelo de mola como o seu!

Jujuba ficou muito, muito chateada mesmo. Acabou não querendo brincar de nada neste dia. Assim que chegou em casa, correu para a sua prateleira de livros e pegou um livro enorme, cor de rosa, com uma única palavra no título: 'Princesas'. Abriu- o e começou a folheá-lo. Tinha as histórias da Branca de Neve, da Rapunzel, da Bela Adormecida, da Ariel, da Cinderela. Nem lia as histórias, estava hipnotizada olhando as gravuras. Nenhuma, nenhuma princesa tinha cabelo de mola! Suas amigas estavam certas. Ela nunca poderia ser princesa. Fechou o livro e chorou. Chorou até dormir. Estava tão chateada que nem levantou para jantar.

De manhã bem cedinho, Jujuba escutou um barulhinho e despertou. Sua irmã mais velha estava na sala, vendo televisão. Foi até a sala e perguntou para a irmã o que ela estava vendo. Levou um susto com a resposta.

  • Acorda, Juliana, hoje é o casamento da princesa!

  • Que princesa? Da Cinderela? - a menina perguntou.

  • Não! Da princesa de verdade, olha ali – e mostrou um príncipe e sua noiva, agora uma princesa, em um casamento de verdade, num país longe que Jujuba nem sabia que existia.

Jujuba assistiu, fascinada, às imagens do casamento. Era tudo tão bonito! A princesa era tão linda, com um vestido tão maravilhoso, e... com um cabelo tão liso. Ao perceber isso, Jujuba não conseguiu conter as lágrimas. Sua irmã não entendeu nada.

  • Que houve, Jujuba, o que te deixou triste?

  • Eu estou triste porque nunca vou ser princesa!

A irmã soltou uma gargalhada, abraçou sua irmãzinha e disse:

  • Você não sabe disso, Jujuba. Quem sabe você não casa com um príncipe de verdade e vira princesa, igual a esta da televisão?

Entre soluços, a menina respondeu:

  • Não, eu nunca vou ser princesa, nem de verdade e nem de mentira.

  • E por que você acha isso? - indagou sua irmã.

  • É porque eu tenho cabelo de mola, e princesa tem cabelo liso! - a menina respondeu isso chorando forte como a irmã nunca vira.

Tatiana, a irmã mais velha, secou as lágrimas dos olhos de sua irmã caçula, deu-lhe um beijo e abraçou-a com força até que ela se acalmasse. Assim que a menina parou de chorar, Tatiana disse:

  • Juliana, eu quero que você olhe para a televisão.

  • Eu tô olhando – respondeu a menina.

  • Presta atenção. Repara nisso: a princesa não se mexe. Tem que ficar ali, parada, acenando com a mão. Está todo mundo olhando para ela, e nem dar um beijo na hora que quer ela pode. Ela não pode fazer nada. É quase uma estátua viva. É isso que você quer?

  • Não, mas...

  • Princesa é bonito em conto de fadas. Mais legal é ser gente de verdade. Assim, igual a mim e a você. Quando eu casar, eu vou dançar a noite toda, vou tomar aquela bebida de bolhinhas chique, vou fazer uma bagunça danada! Não vou querer ficar só acenando minha mão, não! E aposto que você também não quer isso!

Jujuba riu de imaginar a irmã acenando, quase como uma estátua, para todos os que passavam. Não, ela também não queria isso. Deu um beijo na irmã e saiu da sala saltitando de felicidade.

Quando chegou a hora do recreio, na escola, Tônia foi logo definindo os papéis, como sempre. E disse:

  • Jujuba você vai ser a governanta do castelo, nós dançamos e você prepara o chá e...

Jujuba interrompeu sua amiga.

  • Tônia, eu até posso brincar de princesa, mas só se for para brincar direito.

  • Como assim? - as meninas estranharam.

  • Vocês não são princesas?

  • Sim!- responderam todas juntas.

  • Então vocês tem que ficar sentadinhas aí, acenando para todo mundo!

  • Mas, mas, não é assim que...

Jujuba interrompeu Tônia novamente.

  • É assim que é a vida de princesa. Eu vi hoje uma princesa de verdade casando na televisão. Se vocês são princesas, tem que brincar assim!

Mesmo contrariadas, as meninas sentaram e ficaram acenando. Jujuba, com seu cabelo de mola, foi brincar de pique com os meninos, pulou corda, brincou de elástico, fez uma farra tremenda. No meio do recreio, suas amigas perguntaram se não podiam brincar também e ela respondeu que não, princesa só acenava e mantinha a pose. 'Brincadeira de verdade é para gente de verdade', Jujuba explicou.

Daquele dia em diante, nunca mais se brincou de princesa naquela escola. Todas as meninas diziam: 'meu cabelo é liso, mas faz mola quando eu tomo banho. Posso brincar como gente de verdade?' Jujuba ria e concordava. Era bom ter amigas de verdade ao invés de princesas!

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Menina pode isso, menino pode aquilo

Menina pode isso, menino pode aquilo



Marina e Eduardo eram amigos desde sempre. Suas mães engravidaram na mesma época e eles nasceram com poucos dias de diferença. E, além de tudo, eram vizinhos. Estavam mesmo destinados a serem amigos. E assim foi que desde que saíram das barrigas das mães os dois tornaram-se inseparáveis: dos primeiros banhos de sol aos primeiros passinhos, fizeram tudo juntos. E continuaram assim até os cinco anos de idade, quando as coisas começaram a mudar.

O que mudou foram os outros. Eles continuavam ligados um ao outro como sempre. Mas, um dia, estavam brincando e foram interrompidos. Estavam no apartamento de Marina. Ela tinha uma enorme cozinha colorida, cheia de panelinhas e comidinhas de plástico. Até um aventalzinho tinha! Eduardo adorava brincar ali. Faziam assim: Marina dizia que queria comer algo diferente e Eduardo dizia que iria preparar. Passavam a tarde inteira nesta brincadeira, onde ela pensava numa refeição gostosa e ele dizia que ia cozinhar para ela. Neste dia, faziam o mesmo de sempre. Marina estava sentada no chão e pediu:

  • Dudu, hoje eu quero comer alguma coisa com cenoura.

  • Doce ou salgado, Mari?

  • Tem doce de cenoura?

  • Tem bolo! Quer?

  • Quero!

  • Vou fazer! - e, dizendo isso, pegou uma porção de cenourinhas de plástico e colocou em uma panelinha. Estavam no meio da diversão quando sua mãe veio buscá-lo e viu a cena. Mandou que parassem na mesma hora.

  • Eduardo, o que você está fazendo de avental? Tira já isso!

  • Mas eu sou o cozinheiro, tô fazendo bolo de cenoura para a Mari – respondeu o menino.

  • É, sim, eu que escolhi o bolo! - continuou a menina.

  • Menino não pode brincar de panelinha! - retrucou a mãe do Eduardo.

Marina e Eduardo se olharam bastante assustados. Como não podem brincar de panelinha? Brincavam assim desde que se entendiam por gente! A mãe do Eduardo parecia tão brava que acharam melhor não discutir.

A mãe do Eduardo o levou para casa, onde deu-lhe uma bronca danada. Disse que menino não brinca de panelinha, nem de boneca, nem de qualquer coisa que entre no item 'brincar de casinha'. Ele achou tudo muito estranho – ele e sua amiga sempre brincavam das mesmas coisas, e ele gostava disso – e tentou perguntar o porquê. Mas sua mãe encerrou o assunto dizendo apenas:' não é brincadeira de menino'. Ele ficou um pouco chateado, mas não quis continuar a discussão e aceitou.

Alguns dias depois, estavam os dois novamente brincando, desta vez no apartamento do Eduardo. Lá, não tinha como brincar de casinha, já que o menino não tinha as panelinhas e as bonecas. Mas ele tinha uma coleção de carrinhos, e ele e Marina se divertiam brincando assim. Estavam no meio de uma corrida, quando foram novamente interrompidos. A mãe da Marina tinha ido buscá-la e, ao ver sua filha brincando com os carrinhos, acabou com a bagunça na mesma hora.

  • Marina, o que é isso, posso saber?

As crianças se olharam confusas. O que é isso, o quê? Não sabiam do que ela estava falando. E continuaram sem saber, já que a mãe de Marina a pegou pela mão e a levou embora sem dar nenhuma explicação. Só quando chegaram em casa é que Marina entendeu do que se tratava. Sua mãe, um tanto irritada, disse-lhe que ela já estava virando uma mocinha, e que não podia continuar se comportando como um moleque. Marina não entendeu, e disse isso para sua mãe. A mãe, então, respondeu com firmeza: ' Carrinho é brincadeira de menino, e não de menina. Não é delicado uma menina ficar se arrastando no chão empurrando os carrinhos. Você não pode mais brincar assim'. Marina não teve chance de argumentar. Sua mãe deu o assunto por encerrado e já tinha ido cuidar de outras coisas.

Passados alguns dias, iriam novamente brincar no apartamento de Eduardo. Marina chegou com uma mochila grande. Dudu estranhou.

  • Que que tem aí, Mari?

  • Boneca e panelinha. Minha mãe disse que eu tinha que trazer.

  • Por que? Eu tenho uma porção de brinquedos aqui.

  • Eu sei, mas ela disse que são brinquedos de menino e que eu tenho que trazer brinquedos de menina.

  • Mas a minha mãe não quer que eu brinque de casinha. Disse que não é brincadeira de menino. Será que não podemos mais brincar juntos?

A mãe do Eduardo ouviu a conversa dos dois. Na hora, não disse nada. Quando a mãe da Marina veio buscá-la, contou que os dois passaram a tarde sentadinhos conversando, e contou tudo o que eles conversaram, no quanto estavam preocupados se não poderiam mais brincar juntos. A duas mães decidiram, então, que não deveriam afastar os dois. Então os chamaram e disseram que eles poderiam brincar do que quisessem, mas assim: na brincadeira de casinha, Marina seria quem faria a comidinha e cuidaria das bonecas, enquanto na brincadeira de carrinhos, Eduardo seria o piloto dos carrinhos. Explicaram que, deste modo, poderiam continuar brincando juntos. As crianças, felizes, concordaram com as condições que as mães impuseram.

Concordaram, mas nunca obedeceram. Não tinha jeito: Marina gostava de brincar com os carrinhos e Eduardo gostava de brincar com as panelinhas. Assim, continuaram brincando do mesmo jeito de sempre. Com uma diferença. Quando algum adulto se aproximava, disfarçavam. Para quem os visse, parecia que Marina gostava de suas panelinhas e Eduardo era louco por seus carrinhos. E cresceram amigos e brincaram assim por muitos anos.

Hoje, Mari e Dudu são adultos. E pouca coisa mudou: ele ainda cozinha para ela, que ainda brinca de carrinhos. Suas mães já não podem mais reclamar. Eduardo tornou-se um renomado chef de cozinha, enquanto Marina trabalha como designer de automóveis em uma fábrica alemã. Continuam muito amigos. Lembram-se, com carinho e saudade, da infância que dividiram. E ficam muito felizes por terem conseguido enganar suas mães e crescerem exercendo suas vocações. No final das contas, os dois sempre souberam que menina e menino podem fazer o que quiserem, podem tudo igual. Só tiveram que crescer para ensinar isso para as suas mães também...

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Hora do Banho

Hora do banho



Estava na hora do banho e Carol sabia disto. Tentou adiá-lo ao máximo, mas agora não tinha jeito. Teria que dar, pela primeira vez, banho em sua bebê. Ela estava um pouco apreensiva, naturalmente, mas sabia exatamente o que deveria ser feito.

Primeiro, ajeitou a pequena banheira em um lugar que lhe pareceu seguro e confortável – em cima do sofá. Pegou sua bebêzinha, tirou com cuidado sua roupinha e disse: 'vamos, neném, você agora vai ficar limpinha'. Colocou-a na banheira, mas achou que a água ainda não estava na temperatura ideal. Gritou 'ligou o gás'? - para quem quer que estivesse por perto. Sua mãe, que estava em casa, confirmou:' liguei'. Colocou novamente a mão na banheira e decidiu que água estava boa. Começou lavando o rostinho com delicadeza. Passou um pouquinho de sabonete em suas próprias mãos e espalhou por todo o corpinho da bebê. Virou-a de costas e continuou a limpeza. Sua mãe pegara a máquina fotográfica: não queria deixar de registrar o primeiro banho da netinha! Carol estava compenetrada em seu trabalho. Sabia dos riscos de um descuido: não pode deixar o bebê engolir água, nem entrar água no ouvidinho. Tem que se lavar bem as mãozinhas e os pézinhos, sem esquecer nenhuma dobrinha. Ela fazia tudo isso com zelo e carinho. Extamente como seus próprios pais sempre fizeram com ela.

Carol tirou a bebê do banho. Enrolou-a em uma toalha bem felpuda e cheirosa. Ficou segurando-a no colo, para que ela não sentisse frio. Devagar, deitou-a no sofá, ao lado da banheira. Vestiu-a rapidamente, para evitar uma corrente de vento qualquer - um lindo vestidinho de babados e um par de meias cor de rosa e a bebêzinha estava pronta! Percebeu algo no meio de suas pernas. Luna, a poodle da família, havia se aproximado. Queria participar do momento. Carol passou a mão em seu pêlo macio e riu 'você quer tomar banho também, Lulu?' Mas, ao ouvir a palavra banho, a pequena bolinha de pêlos branco saiu em disparada para a cozinha. Não, definitivamente não queria tomar banho!

Carol continuou o resto da tarde fazendo carinhos em sua bebê. Deu-lhe colinho, ofereceu-lhe a mamadeira, cantou-lhe musiquinhas. Estava divertindo-se muito cuidando de sua bebêzinha. Tanto que não sentiu as horas passarem. Só no final da tarde se deu conta de que o dia já estava acabando. Foi quando sua própria mãe se aproximou e disse: 'Carol, está na hora do banho.' A menina deixou sua boneca em cima do sofá e correu para o banheiro. Agora era a sua vez de ficar limpinha. E era a vez da mamãe brincar um pouquinho com sua bonequinha querida...



OBS: Para não estragar o final da historinha, sua introdução ' A historinha do dia', foi postada aqui embaixo. Nela, o link para o vídeo da Carol dando banho em sua boneca (é só clicar na palavra 'aqui' que você é direcionado para o you tube, onde o vídeo está postado). Mega-ultra-super fofo!!! :)